Considerações sobre o que é real…

Alô amigos da Rede Global,

Já vou avisando, este vai ser um post meio esquisito, um pouco desconexo, mas novamente eu sei que ninguém vai ler, então é mais para eu me lembrar de situações e pensamentos…

Passei dois meses focando em ficar o maximo possível com os meus filhos. Deixei de lado todo o processo de abrir um negócio / achar um emprego para realmente conhecê-los. Foi muito gratificante e me deu um entendimento totalmente novo sobre cuidar da casa e cuidar das crianças, atividades estas associadas na nossa cultura ocidental, com o papel da mãe. O que foi difícil é que são muitas atividades que tem pouco reconhecimento externo se feitas laboriosamente, mas se deixadas de lado, tornam-se irritantemente aparentes. Tudo na casa é assim…lavar louça, varrer a sala, arrumar os brinquedos, lavar, secar e DOBRAR a roupa. No final se você fizer tudo isso, as coisas só estarão do jeito que elas sempre deveriam estar, é uma luta constante contra a famosa 2a. lei da termodinâmica (entropia crescente do universo). E o reconhecimento externo não é nem de outras pessoas, mas meu mesmo. É como se eu mesmo não me valorizasse se as coisas não tivessem como elas deveriam estar….complicado e aparentemente pequeno, mas com as marteladas da rotina e do tempo, elas ganham têmpera de aço carbono (dureza 60 Rockwell Smile). Neste aspecto entendo um pouco melhor o que a Cris deve ter sentido há 6 anos atrás quando mudamos para os EUA…detalhe, ela tinha um filho recém nascido e tinha passado por uma experiencia limítrofe depois de 1 semana de UTI.

Agora vamos ao o quê aprendi sobre as crianças…Anna: ela é’100% genuína afinal tem 3 anos recém completados,..definitivamente não é uma pessoa que acorda pronta para o que der e vier…ela precisa do tempo dela. 10 minutos depois de acordada ela já está 100%, mas nestes 10 minutos eu aprendi que é melhor deixar ela com ela mesma, transicionando do mundo de orfeu para esta realidade aparente que vivemos. O ideal é deixar ela entrar quando quiser e não trazê-la à força…muda tudo. Ela tem o desejo de ser forte e consegue fazer quase tudo que se propõe, desde andar de bicicleta sem rodinha e descer o morro de grama do Grasslawn até desenhar dragões e jacarés. Mas para ela funcionar ela precisa dos rituais e símbolos que ela mesma cria…cobertor muito grande enrolado do jeito que só a mamãe sabe, sandálias especiais de corrida, a cor rosa é de extrema importância para funcionalidade. Ela tem uma sensibilidade muito grande e se preocupa muito com o bem-estar das outras pessoas, especialmente do Otto. Ela não é a pessoa mais sociável do mundo, mas ela escolhe as pessoas que ela gosta e é muito seletiva, até agora ela gosta de umas 4 ou 5 pessoas. No fundo estas 4 ou 5 pessoas sabem direitinho quando a Anna escolheu elas, e elas são sortudas por causa disso.

O Otto é muito doce,  mas as motivações dele são diferentes. Não sei se pela idade (6 anos) mas ele é mais voltado ao mundo externo e pressões e influências. Ele tenta se ajustar e às vezes não consegue e acho que isso gera conflitos dentro dele mesmo (acho que em todos no final das contas)…mas isso fica aparente até na altura da voz dele, ele grita e corre de alegria, explode de braveza, incorpora a montanha-russa de emoções e sofre com isso. Esta na fase de se sentir o injustiçado…ele ainda espera que as coisas aconteçam de forma mágica em volta dele, assim ele pode só fazer o que quer fazer, 100% do tempo.

Observando as crianças, percebi que eu carrego as características dos dois, então de certa forma eu percebo somente as coisas que ressoam dentro da minha alma..e assim funciona o mundo externo…ele é um espelho que reflete de volta para os nossos sentindos e filtros, o que nós somos ou o que precisamos perceber para podermos continuar o nosso caminho evolutivo.Quando estamos rodeados de crianças é gritante a capacidade humana de aprender, eles aprendem coisas extremamente complexas de forma muito simples e é como se clicasse algo dentro deles e pronto, aprendeu. Depois destes 2 meses eu acredito que um fator muito importante neste processo de aprendizado é o sono. É como se o cérebro deles consumisse muita energia e precisasse fazer o arquivamento e o defrag durante o sono. O mais louco é que eles acordam e de repente conseguem fazer algo que ontem era impossível. Eu acho que estou precisando dormir melhor…

Continuando a reflexão sobre a realidade externa, ontem pensei muito sobre isso e também sobre qual é a raiz da nossa identidade. Pela primeira vez tive a sensação de ver a minha mente em funcionamento como se fosse um músculo. Olhando o nosso braço é fácil entender que, apesar de você ser o seu bíceps, como você vê e sente ele funcionando, você claramente é um observador e o seu biceps é o objeto. A coisa fica mais interessante quando a gente consegue ter esta sensação em relação ao nosso cérebro, processando inúmeros pensamentos em paralelo e ao mesmo tempo emitindo opiniões mantendo uma conversação, recebendo estímulos externos de temperatura, sons, gostos e cheiros…e você consegue entender que tudo isso é uma ferramenta que possibilita você, a real identidade sua,  interagir com o mundo físico. Mas apesar de tudo isso ser você, é como se o sistema nervoso fosse apenas mais uma ferramenta, uma faceta que o observador usa para interagir. Mas quem é o observador em última instância? Aqui entra um problema recursivo, pois enquanto houver observador e objeto, sempre será possível ir um nível mais profundo. Acho que no final é melhor aceitar o conceito integrador de que em última instância a dualidade entre o todo e o nosso individual é limitante para o entendimento essencial e que a realidade não é dual. A individualidade é uma distração criada para possibilitar experiências no tempo. E o tempo é a razão da existência do espaço e de todo mundo material. A matéria só existe em função do tempo…no final é simples. Basta derrubar a primeira peça do dominó que todos eles cairão, e esta peça é o tempo.  Acho que esta é a razão do Budismo e do Zen focar tanto na impermanência de tudo.

Bem, acho que vou parar este post por aqui, mas tem muita coisa ainda que pensei e vou colocar aqui um dia…

Namaskar!!!

 

 

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5 Responses to Considerações sobre o que é real…

  1. miki w. says:

    oi, michael!

    que surpresa boa vc aparecer no tuiter e eu poder te encontrar aqui.
    gostei muito do seu post. achei corajosa e valorosa a sua reflexão sobre o trabalho ‘do lar’. acho que só quem passa por ele tem a real dimensão do que ele é e de quanta frustração ele pode gerar. trabalhinho ingrato que nunca aparece e, como vc mesmo disse, quando aparece é pro lado negativo da história. fico pensando na geração da minha mãe que só pôde fazer isso a vida toda… (ela só estudou até a 4a série e nunca teve muitas oportunidades na vida)

    que lynda a sua reflexão sobre as personalidades e comportamentos da anna e do otto! e que pai mais incrível vc deve ser, da mesma maneira que a cris deve ser uma mãe maravilhosa! anna e otto foram abençoados pelos céus e poderão ter para sempre o bem mais precioso que todo ser humano precisa: o amor incondicional, nem que seja uma vez na vida!

    tenho que dizer que não consegui alcançar muito bem a última parte, mas me conectei com o final do seu pensamento onde vc cita o zen, o budismo e a impermanência. estou lendo um livro chamado ‘o livro tibetano do viver e do morrer’ que tem me feito repensar algumas coisas na minha vida. há alguns anos venho tentando praticar o desapego, mas ah! como isso é difícil! pelo menos para uma pessoa apegada como eu. acho que já melhorei, mas ainda há um longo caminho pela frente.

    bjs pra vc, outros para a cris e ‘abracos-de-amassagar’ no otto e na anna
    com a brisa e o constante formar das ondas do mar, me despeço,
    m.

  2. Alemao na fase Ronaaaaaaaaaaaaaaldo says:

    Thanks Lemas pelos seus belos pensamentos!

  3. Piu says:

    EU LI !!! EU LI !!!! E me recordei do meu sabático quando tive a mesma sensação de quanto importante e desafiador é o papel de mãe … COOL POST !

  4. Vive says:

    Uau Mi! Adorei! Bacana vc registrar esta percepção da sua “permanência” no lar! A mulherada-mae vai te amar … A descrição das crianças foi demais! Poucos pais tem visão organica dos filhos como vcs tem. E o lance de se identificar com eles é algumas vezes intrigante … Hahha. Beijocas

  5. No final das contas, feliz quem tem uma criança ao seu lado! Adorei!!!! Obrigada por compartilhar.

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